Segunda-feira, 4 de Junho de 2007

Rua do Visconde de Setúbal

      Para saber quem foi o Visconde de Setúbal, recorri ao escrito de Luís Miguel Queirós, em O PÚBLICO de 18 de Agosto de 1996. É do seguinte teor:

Todos os portuenses sabem que o Visconde de Setúbal é a figura que deu nome à rua onde se requisitam as certidões de nascimento. Muitos, provavelmente, saberão ainda que o dito visconde andou metido nas lutas liberais. E não há ocupação que ofereça - ou tenha oferecido - melhores garantias de alçar um homem às placas toponímicas desta cidade. Desde que tenha combatido do lado certo, naturalmente; já no que toca aos miguelistas, o Porto só abriu excepção com Pinho Leal, cuja inclinação absolutista era irrelevante face aos múltiplos méritos do autor dessa obra colossal que é o "Portugal Antigo e Moderno".

      O que decerto nem todos saberão, voltando agora ao visconde de Setúbal, é que o aristocrata português não era português; nascido em Trier e baptizado Johann Schwalbach, era um súbdito alemão; e, antes de servir o nosso exército contra os invasores napoleónicos, combatera já nas fileiras da Inglaterra.

      Que Johann Schwalbach mereceu bem a homenagem que a cidade lhe prestou, está fora de dúvida. E dela seria também digno, de resto, o seu filho Pedro, que tinha somente 15 anos quando desembarcou no Mindelo, ao lado do pai e dos restantes "bravos". Era apenas um cadete, mas a coragem de que deu provas logo no seu primeiro recontro com os miguelistas - a batalha de Ponte Ferreira - valeu a este "caloiro" a Torre e Espada por "valor, lealdade e mérito". Quiseram depois persuadi-lo a usar o título que lhe cabia por herança paterna, mas João Pedro, movido pela sua proverbial modéstia, recusou, como já declinara, em 1851, uma comenda da Ordem de Cristo.

      E, no que toca a personalidades de pretígio, a cepa dos Schwalbach não se ficou por aqui. Logo na geração seguinte, Eduardo Schwalbach, um neto do velho visconde, ia tornar-se um dos mais reputados jornalistas e dramaturgos da capital, assinando um sem-número de peças e tocando todas as teclas da escrita teatral, do drama à comédia, da farsa à opereta e da fantasia à revista.

      O seu avô, esse, preferia a espada à caneta; e as batalhas que travou não terão sido menos do que as muitas peças que o seu neto levou aos palcos de Lisboa. Ignorando os primeiros anos da sua folha militar, sigamos-lhe resumidamente a carreira desde o momento em que, já alistado no exército português, atingiu, em 1809, o posto de alferes. Durante a Guerra Peninsular, participou nos combates do Buçaco, de Fuentes de Oñoro, de Vitória e dos Pirenéus, tendo sido gravemente ferido neste último. O seu talento militar e a sua intrepidez rapidamente o elevaram à categoria de tenente, tendo assistido já com o estatuto de capitão à derrota definitiva dos franceses.

      Seguiu depois para Tondela, como major de milícias, e, em 1827, era promovido a tenente-coronel. No ano seguinte, rebentou no Porto a revolta contra o governo miguelista e Schwalbach, abraçando a causa liberal, tomou parte em diversas batalhas, todas elas, aliás, de infeliz desenlace para as forças constitucionais. O futuro visconde - que se casara em 1816 com D.ª Antónia de Morais e Castro - logrou refugiar-se em Inglaterra, donde partiu para a Madeira, onde o esperava nova derrota face às tropas miguelistas que tomaram o Funchal. De novo obrigado a buscar refúgio em Inglaterra, rumou em seguida para o Brasil, e dali para a ilha Terceira dos Açores, onde foi reunir-se aos defensores da Carta.

      Schwalbach e seu filho João Pedro partem depois para o continente, integrando esse corpo expedicionário que desembarcou numa praia próxima do Porto e que, após a derrota dos absolutistas, passou à história com a elogiosa designação colectiva de "bravos do Mindelo". Durante o cerco do Porto, Johann Schwalbach participa em diversas batalhas e, além de receber, tal como o filho, a Torre e Espada, é ainda promovido a brigadeiro.

      Mas a guerra ainda não terminara e o brigadeiro alemão parte com as tropas do duque da Terceira rumo ao Algarve. Irá combater na tomada de Alcácer do Sal, na de Setúbal e, finalmente, na de Cacilhas. Tendo entretanto recebido a comenda da Torre e Espada, ordem de que já era oficial, Schwalbach vai ainda destacar-se na batalha de Almoster.

      Finda a guerra civil, é nomeado governador militar do Alentejo e virá, mais tarde, a desempenhar idênticas funções na Beira Alta. Mas a vitória do Setembrismo vai erradicá-lo do exército, já que Schwalbach tomara parte na fracassada revolta cartista dita "dos marechais". Um contratempo efémero, uma vez que não tardou a ser reintegrado, para desempenhar, agora e, sucessivamente, as funções de governador de S. Julião da Barra e comandante das 7.ª e 8.ª divisões militares.

      A dois anos da sua morte - faleceu em Estremoz, em 1847 - é elevado a merechal-de-campo. Em 1845, fora-lhe concedido o título de visconde de Setúbal, a substituir o baronato que detinha desde 1835.

      É, pois, este o homem evocado na placa toponímica da Rua do Visconde de Setúbal - ou, antes, nas duas placas toponímicas, respectivamente colocadas nas esquinas com a Rua de Bolama e com a Rua da Constituição. E que melhor destino, para quem dedicou a vida à defesa da Carta, do que ver-se instituído em braço da Constituição?

      Acrescente-se que a rua já existia quando lhe foi atribuída, em 1833, a sua actual designação. Era uma ruela estreita, conhecida por Viela da Espinheira, e a homenagem toponímica coincidiu, justamente, com as obras de alargamento da via.

     

música: 'Pronúncia do norte' GNR com ISABEL SILVESTRE
publicado por caminheiro1 às 00:08

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