Domingo, 24 de Fevereiro de 2008

Covelo e o Cerco do Porto

Já em 24 de Maio de 2007 eu tinha publicado um artigo que abordava as origens do nome Covelo, atribuído a uma quinta, a uma rua e a duas travessas da freguesia de Paranhos. Hoje, tenho o prazer de transcrever a crónica que o jornalista e historiador da cidade do Porto, Germano Silva, publica no Jornal de Notícias e que faz uma abordagem ao mesmo nome relacionando-o e contextualizando-o nas lutas fraticidas travadas entre miguelistas e liberais.

 

«A Quinta do Covelo no tempo do Cerco.

Acabo de constatar, com alguma alegria e justificada satisfação, naturalmente (é sempre bom saber que ainda há quem se interesse pela história desta cidade), que a maior parte da correspondência, e-mails, mensagens e telefonemas que recebo, por causa destas crónicas portuenses, provêm de gente moça que anda a fazer trabalhos académicos sobre o Porto. Como é o caso da pergunta que me foi dirigida por um estudante do Secundário e que deu origem à presente crónica. A questão formulada foi a seguinte "Que batalha foi a que destruiu a casa e a capela da Quinta do Covelo ?". Comecemos pela história da propriedade. No século XVIII, aí por 1720, a quinta, então chamada do Lindo Vale ou da Boa Vista, pertencia a um fidalgo chamado Pais de Andrade. Pela morte deste passou, por herança, para duas filhas que a venderam a um negociante chamado Manuel José do Covelo. A partir daqui fica-se a saber por que é que a quinta se passou a chamar do Covelo. No século XIX há o registo de nova mudança de dono por 1829 ou 1830, a quinta foi vendida, pelos descendentes do Covelo, a Manuel Pereira da Rocha Paranhos e passou a ser conhecida, também, por Quinta do Paranhos. O Manuel José do Covelo foi sepultado num mausoléu de pedra no interior da capela que tinha Santo António como padroeiro. O que resta dessa grande propriedade pertence, hoje, à Câmara do Porto que ali instalou um parque público. A casa e a capela, um belíssimo conjunto da Arquitectura setecentista, foram incendiadas e destruídas, em 16 de Setembro de 1832, na sequência de combates entre liberais e miguelistas, ocorridos durante o Cerco do Porto. Logo a seguir à entrada no Porto do Exército Liberal, a 9 de Julho de 1832, os miguelistas trataram de montar, a partir do que, então, eram considerados os arrabaldes da cidade, um apertado cerco aos sitiados. Nesse sentido , criaram posições ofensivas em sítios de onde mais facilmente, através das suas peças de artilharia, lhes fosse possível atingir o centro da cidade e, ao mesmo tempo, impedir o reabastecimento das tropas liberais e dos próprios civis. O alto do Covelo, a que popularmente se chamava "o monte", foi considerado pelas tropas absolutistas como o sítio ideal para montar a artilharia que havia de metralhar o centro do Porto e vigiar as movimentações de civis no sentido de impedir, por exemplo, que os lavradores de Paranhos introduzissem na cidade mantimentos e outros viveres através da estrada da Cruz das Regateiras. E com estes propósitos criaram uma autêntica fortificação na Quinta do Covelo. Só que os liberais não ficaram quedos. Consta que por iniciativa do próprio D. Pedro IV as tropas constitucionais resolveram, em 16 de Setembro de 1832, desalojar os miguelistas do reduto do Covelo, a fim de ficarem com o controlo daquela zona, de grande importância estratégica para os combates que estavam para vir. Os objectivos dos liberais foram conseguidos. Uma força de "mais de 1400 baionetas", além de terem escorraçado os miguelistas, a quem causaram inúmeras baixas, ainda arrasaram fortificações e destruíram baterias e canhoneiras. Mas por muito pouco tempo os soldados de D. Pedro lograram manter as posições que haviam conquistado. Os absolutistas contra atacaram, em Março de 1833, e conseguiram, depois de renhidos combates, com enormes perdas para as duas partes, retomar as posições que pouco antes haviam perdido. De imediato iniciaram a construção de "defesas do monte" erguendo ao redor estacadas ou paliçadas com o que pretendiam ocultar os trabalhos de fortificação que andavam a fazer. E os liberais? Que fizeram ? Voltaram ao ataque. Numa das digressões que diariamente fazia aos locais onde o perigo mais se fazia sentir, D. Pedro passou pela Aguardente (actual Praça do Marquês de Pombal) e apercebeu-se do perigo que constituía para a sua causa o facto de os miguelistas terem retomado o Covelo e providenciou para aquela posição voltasse a ser ocupada pelos liberais. Isso aconteceu a 9 de Abril de 1833. E a delicada e arriscada tarefa foi confiada ao coronel José Joaquim Pacheco que, mais tarde, viria a morrer, em combate, na Areosa. A cidade, agradecida, deu o seu nome à antiga Praça do Mirante que é hoje a Praça do Coronel Pacheco. Uma crónica da época refere esta segunda tomada do Covelo pelos liberais, da seguinte forma "a 7 de Abril descobriu-se a longa estacada feita pelos miguelistas desde as primeiras casas de Paranhos até às eiras do Covelo. Queriam fortificar-se ali. Não havia tempo a perder. Era preciso desalojá-los. A artilharia dos liberais começou a responder desde as primeiras horas da manhã do dia 9 e durou o fogo até ás seis da tarde. Cruzaram-se os fogos das baterias da Glória (Lapa), do Pico das Medalhas (Monte Pedral), do Sério (alto da Lapa), da Aguardente (Marquês de Pombal) e de S. Brás. Uma força de mil homens saiu fora das linhas parta tomar de assalto o monte do Covelo. Mas no dia seguinte (10 de Abril) os absolutistas voltaram com o intuito de retomarem as posições perdidas e onde os liberais haviam levantado um reduto em menos de oito horas. Estavam lá dentro apenas 200 soldados. Foram atacados por mais de 2000 do inimigo. Foram momentos decisivos. Duzentos homens livres conseguiram pôr em fuga 2000 do inimigo.» Muito obrigado Germano Silva. Saudações paranhenses do Francisco.

sinto-me: Engripado
música: 'Só gosto de ti' HERÓIS DO MAR
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publicado por caminheiro1 às 19:03

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Quinta-feira, 24 de Maio de 2007

Covelo - origem do nome

 

      Na freguesia de S.Veríssimo de Paranhos, Covelo é nome de quinta, de rua e de duas travessas que lhe são adjacentes. Para se descobrir a sua origem, houve necessidade de se recorrer a Horácio Marçal para se ler o seguinte:

«Quinta do Covelo - Esta riquíssima propriedade tem 90 000m2 de superfície e confina, pelo sul, com a Rua de Bolama; pelo poente, com a Rua de Faria Guimarães; pelo norte, com as escadas da Rua do Monte de S.João, e, pelo nascente, com as ruas do Monte de S.João e de Álvaro de Castelões.

      O fundador desta "Quinta", que se chamou do "Lindo Vale" e da "Bela Vista", foi um antigo capitão geral da cidade (por volta de 1720) e fidalgo da Casa Real de nome Pais de Andrade, que por sua morte deixara a duas filhas, que vieram a falecer em estado de solteiras.

      Destas, por compra, passou para o comerciante Manuel José do Covelo, de Amarante, residente na cidade do Porto, onde tinha dois grandes armazéns: um de sedas e outro de cereais, sendo este último no prédio onde actualmente se acha instalada a Companhia Vinícola, à Rua de Entreparedes.

      Logo que Manuel Covelo entrou na posse da propriedade, mandou-a aformosear e cultivar, chegando a produzir 40 pipas de bom vinho, além de muitos carros de cereal.

      Esta "Quinta", que depois tomou o nome do seu proprietário - Covelo - tinha uma boa nascente de água, mais tarde eliminada pelo desenvolvimento de construções e escavações que se fizeram à sua volta.

      O edifício primitivo, com sua capela anexa, presentemente em estado ruinoso, fazia frente para o caminho que veio a ter o nome de Viela do Covelo, a qual, como ainda muito bem se pode ver, fazia um joelho no cunhal da referida capela (Esta capela ainda conserva, como saudosa recordação, uma pequena cruz no pináculo da fachada e dois desmantelados campanários sem sinos).

      Faleceu o comerciante Covelo no ano de 1829 ou 1830 e o seu corpo ficou sepultado em mausoléu de pedra, na capela privativa da sua casa senhorial.

      O seu corpo desceu à sepultura envolvido em rico uniforme do seu posto de oficial (milícias?), levando espada com copos de ouro e vários outros adereços do mesmo precioso metal, tais como charlateiras, etc.

      O actual dono desta propriedade, com quem falámos para a obtenção destes informes, é o Sr. Isidro António Pereira Rocha Paranhos e conta hoje (1954) 70 anos de idade.

      A "Quinta" já vem de seu avô Manuel Pereira da Rocha Paranhos e passou a seu pai António Paranhos (falecido em 13/03/1936 com 85 anos de idade) que, comprando a parte dos irmãos, ficou seu único proprietário.

      Esta magnífica e vasta herdade, que teve, como vimos, diversas denominações, é hoje conhecida também por "Quinta do Paranhos", nome tomado dos seus últimos representantes.

sinto-me: Com tempo bem ocupado
música: 'A ouro e prata' FAUSTO
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publicado por caminheiro1 às 23:41

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