Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

O lugar de Cortes

O jornalista e historiador Germano Silva, publicou na revista VISÃO de 12 de Novembro de 2009, o seguinte:

«O LUGAR DE CORTES, Um desconcertante pitoresco

Entre as ruas de Dionísio Santos Silva e do Conde de Campo Bello, no coração da freguesia de Paranhos, aninha-se o sítio de Cortes, com suas casinhas térreas, seus muros de pedras musgosas sobre os quais pende a ramagem tímida de velhas parreiras. O cenário é de sonho: aqui o apontamento de uma água forte, mais além o fragmento de uma aguarela. Neste ambiente, teimosamente cinzento, salpicado aqui e ali por tons de rosa e verde-ervilha, ascende a frontaria da igreja paroquial como que a abençoar aquela mediania urbanística de que ressalta ainda o cunho tipicamente rural. Este sítio de Cortes não é mencionado pelo reitor João Carneiro da Silva quando respondeu às inquirições de 1758. Mas é topónimo antigo porque já vem mencionado num documento de meados do século XVI, em que se faz menção aos bens da igreja de Paranhos. Em 1766 era uma aldeia que agregava as agras de Cortes e Oliveiras, "a primeira das quais com algumas árvores de fruta e vinha e qualquer delas cercada de parede..." Corte, do latim "cohorte" significa capoeira, curral, aprisco, ou seja: lugar onde se recolhem e dormem animais. Por aqui tudo se amalgama na intimidade dos planos. Perdem-se as linhas do trânsito, os portais das grandes casas de lavoura, aas belas varandas de ferro forjado, as bocas sombrias dos casebres. por todo o lado um pitoresco desconcertante.

A primeira igreja paroquial de Paranhos, à qual pagavam foros as agras de Cortes, devia remontar, julga-se, à época da reconquista (séculos XI a XII) pois sabe-se que já existia no ano de 1123. A actual, com uma frontaria muito sóbria, mas graciosa, é muito mais recente, provavelmente dos meados do século XVIII. De concreto sabemos apenas que no ano de 1845 este templo, "em consequência de se achar em grande ruína e indecência" foi sujeito a reparações exteriores que importaram em 27$985 réis.

O que mais cativa o olhar na Travessa de Cortes é o cenário natural que lá fomos encontrar e de onde é possível distinguir mansardas, telhados, gelosias, beirais, a ramagem fugidia de um quintal. Pode saber-se tudo sobre urbanismo, sobre ruas, sobre jardins e até sobre palácios; mas aqui todo o conhecimento que se julgue ter é por adivinhação. As definições disto ou daquilo, perante esta realidade concreta, delirante de labirintos, pairam no ar como um mistério indecifrável.

Reparem bem nisto: nada mais estranho nem menos deslumbrante do que estes indecifráveis restos de janelas embutidas no que resta de um velho muro. Aqui não há que olhar e muito menos que ver, há que sonhar. Estas ruínas guardam consigo algum enigma passado. Para intrigar ainda mais a nossa argúcia, entaiparam, digamos assim, o fundo das três janelas. Dentro de pouco tempo de tudo isto restará entulho e pó que as enxurradas hão-de levar e com elas irá todo o encanto arqueológico do sítio.

Uma rua, a de Dionísio dos Santos Silva, aberta na agra de Cortes, um correr de casas baixas, dois degraus de soleira, o passado do presente a demorar o futuro. Estes recantos, com o seu acentuado cunho de ruralidade, para poderem ser entendidos têm de ser vistos assim, no seu próprio meio ambiente. Foi em sítios como estes, da populosa freguesia de Paranhos, que se fez a invenção de um dos mais afamados doces que se vendiam (e ainda vendem) em todas as romarias do Norte: o doce de Paranhos.

A Travessa de Cortes orgulha-se da vizinhança de uma ou outra antiga casa de lavoura e das propriedades que lhes estavam anexas. São os resquícios dos inúmeros imóveis constituídos por quintas, casais, agras e outras boas terras de semeadura, que davam o pão e o vinho e que o Cabido da Sé do Porto por aqui possuía e que, durante séculos, andaram emprazados a diversos rendeiros. Passeando por estes sítios não é difícil descobrir que há neles qualquer coisa de arcaico e de venerando...»

Saudações tripeiras do Francisco.

 

 

sinto-me: Tripeiro
música: 'A palma e a mão' JOÃO PEDRO PAIS
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publicado por caminheiro1 às 21:53

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1 comentário:
De Antonio Pereira a 19 de Abril de 2010 às 19:22
Amigo Francisco, não quero comentar o texto que aqui apresentas mas sim dizer que é com imensa alegria que te vejo dedicado a uma parte da NOSSA cidade. Abraço

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